Saúde mental e escuta
Por que escutar é validar
Por Kariane Messias
Saúde mental e escuta caminham juntas. Alguém pergunta: ‘Como você está?’ A resposta vem quase automática: ‘Estou bem.’ Mesmo quando o corpo está cansado, a mente acelerada e as emoções difíceis de organizar. Em muitos momentos, não faltam sentimentos. Falta segurança para expressá-los e confiança de que alguém os receberá com atenção.
Em 2026, o Centro de Valorização da Vida escolheu para o Setembro Amarelo o tema ‘Escutar é estar presente’. O convite parece simples, mas toca uma necessidade humana profunda: falar sobre o que sentimos sem que nos interrompam, corrijam ou julguem. Uma escuta acolhedora não resolve todos os problemas, mas pode evitar que alguém enfrente sozinho um momento de sofrimento.
Por que é tão difícil dizer que não estamos bem.
Muitas pessoas aprenderam cedo que demonstrar tristeza era sinal de fraqueza, que sentir medo era exagero ou que chorar incomodava. Frases como ‘engole o choro’, ‘isso não é nada’, ‘você precisa ser forte’ e ‘tem gente passando por coisa pior’ atravessaram gerações. Mesmo quando pretendiam encorajar, essas frases ensinavam uma mensagem perigosa: podemos demonstrar algumas emoções, mas precisamos esconder outras.
Com o tempo, a pessoa deixa de precisar que alguém invalide sua experiência. Ela mesma passa a fazer isso. Diante da ansiedade, pensa que está exagerando. Diante da tristeza, cobra gratidão. Quando o cansaço chega, exige produtividade. Em vez de perguntar ‘o que esta emoção está tentando me mostrar?’, conclui que não deveria senti-la.
A emoção, porém, não desaparece só porque a consideramos inadequada. Ela pode continuar presente no corpo, no sono, na irritabilidade, no isolamento, na dificuldade de concentração ou na sensação de estar sempre no limite. Silenciar o sentimento não é o mesmo que elaborá-lo.
Saúde mental e escuta começam pela validação
Quando não reconhecemos o que sentimos, também podemos ter dificuldade para perceber a dor de outra pessoa. A tristeza alheia nos deixa desconfortáveis. O choro parece pedir uma solução imediata. O silêncio produz ansiedade. Então oferecemos conselhos antes de compreender, fazemos comparações ou tentamos convencer o outro de que a situação não é tão grave.
Às vezes, não escutamos a dor do outro porque não sabemos o que dizer. Outras vezes, não a reconhecemos porque também aprendemos a silenciar o que sentimos.
Isso não significa que alguém precise estar emocionalmente perfeito para oferecer acolhimento. Significa apenas que a capacidade de escutar também depende de autopercepção. Quanto mais reconhecemos nossos desconfortos, limites e impulsos, maior a chance de permanecermos presentes sem transformar a conversa do outro em uma tentativa de aliviar a nossa própria ansiedade.
Escutar é considerar que aquela experiência importa
Escutar vai além de permanecer calado enquanto alguém fala. Envolve olhar com atenção, reduzir distrações, respeitar pausas e tentar compreender antes de responder. Também significa considerar que o sentimento relatado é real para aquela pessoa, ainda que nós enxerguemos a situação de outra forma.
O que validar não significa
Validar uma emoção é reconhecer sua existência e buscar compreender a experiência que a acompanha. Isso não exige concordar com todas as interpretações, aprovar qualquer comportamento ou assumir que existe apenas uma maneira de ver os fatos. Podemos reconhecer a raiva e, ao mesmo tempo, estabelecer um limite para uma atitude agressiva. Podemos acolher a emoção; o comportamento ainda pode exigir orientação e responsabilidade.
Quando alguém diz ‘não estou aguentando’, responder ‘você sempre dá conta’ pode parecer incentivo, mas encerra a conversa. Uma resposta mais acolhedora seria: ‘Parece que você chegou ao seu limite. Quer me contar o que está acontecendo?’ A primeira frase devolve uma cobrança. A segunda abre espaço para compreensão.
Respostas que aproximam
Uma escuta validante não exige palavras sofisticadas. Algumas respostas simples comunicam presença:
Percebi que você não parece bem. Quer conversar?
Imagino que isso esteja sendo difícil para você.
Obrigado por confiar em mim para contar isso.
Quero compreender melhor. O que tem sido mais difícil?
Não tenho uma solução pronta, mas posso escutar.
Como posso ajudar neste momento?
Também é importante evitar respostas que disputam com a emoção: ‘isso vai passar’, ‘pense positivo’, ‘todo mundo está cansado’, ‘você não tem motivo para se sentir assim’ ou ‘eu sei exatamente o que você sente’. Mesmo bem-intencionadas, essas frases podem comunicar que a experiência é exagerada ou inconveniente.
Nem toda conversa precisa terminar com uma solução. Algumas precisam começar com alguém disposto a escutar. Muitas vezes, a pessoa precisa primeiro organizar em palavras aquilo que está vivendo. A presença oferece tempo e segurança para que isso aconteça.
Escutar também envolve reconhecer limites
Acolher não significa tornar-se terapeuta de um familiar, amigo ou colega, nem assumir sozinho a responsabilidade pelo bem-estar de alguém. Quem escuta pode funcionar como uma ponte para a rede de apoio. Pode permanecer próximo, incentivar a busca por atendimento e ajudar a acionar familiares ou serviços de saúde quando necessário.
Quando a escuta precisa levar à ajuda
Se houver falas de desesperança intensa, desejo de desaparecer, vontade de morrer ou qualquer indicação de risco, devemos tratar o assunto com seriedade. Não é adequado prometer segredo diante de perigo. Alguém de confiança precisa acompanhar a pessoa e conectá-la a ajuda profissional. Em situação de risco imediato, procure uma UPA, pronto-socorro ou acione o SAMU pelo 192.
O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, todos os dias. Você também pode entrar em contato pelos canais disponíveis no site do CVV. O serviço de escuta oferece apoio importante, mas situações de emergência exigem atendimento de saúde imediato.
Como a psicoterapia pode ajudar
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a identificar emoções, compreender os pensamentos associados a elas e desenvolver maneiras mais saudáveis de comunicar necessidades e estabelecer limites. Também cria um espaço protegido para falar sobre experiências que o medo, a vergonha ou o receio de julgamento talvez tenham silenciado.
Aprender a validar o que sentimos não significa agir de acordo com toda emoção. Significa reconhecer o que está acontecendo internamente para escolher uma resposta mais consciente. Quando entendemos melhor nosso mundo emocional, ampliamos nossa capacidade de pedir ajuda e de estar presentes nas relações.
A presença começa na forma como nos escutamos
Talvez a primeira pessoa que precise da nossa escuta sejamos nós mesmos. Que sentimentos costumamos esconder? O que dizemos internamente quando estamos tristes, com medo ou esgotados? Tentamos compreender a emoção ou apenas exigimos que ela desapareça?
Escutar alguém começa antes da conversa. Começa na disposição de reconhecer que emoções não são defeitos de caráter e que não precisamos comparar sofrimentos para reconhecer sua legitimidade. Podemos não ter a resposta perfeita e não conseguir retirar a dor do caminho. Ainda assim, podemos olhar com atenção, considerar aquela fala importante e mostrar que a pessoa não precisa atravessar tudo sozinha.
Por isso, saúde mental e escuta caminham juntas. Escutar é validar. Validar é reconhecer. E reconhecer pode ser o primeiro passo para que alguém consiga falar, buscar ajuda e voltar a enxergar possibilidades.
Fontes consultadas: CVV Escutar é estar presente e Ministério da Saúde Prevenção do suicídio
Psicóloga Kariane Messias
Palestras em saúde mental.