Toy Story 5 e o uso de telas na infância

Toy Story 5 e o uso de telas na infância: o que o filme nos ensina sobre brincar, crescer e pertencer.

Este texto contém spoilers leves…..

Em Toy Story 5, o uso de telas na infância deixa de ser apenas uma preocupação dos adultos e passa a ocupar o centro da história.

Bonnie está crescendo, seus colegas parecem menos interessados em brinquedos e um novo tablet inteligente, chamado Lilypad, surge prometendo ajudá-la a se conectar com outras crianças.

A partir daí, a pergunta já não é somente “o que acontece com os brinquedos quando ninguém está olhando?”, mas algo muito mais atual:

O que acontece com a infância quando o brincar começa a perder espaço?

A resposta do filme não cabe em uma disputa simples entre brinquedos “bons” e tecnologia “ruim”. E é justamente aí que a história se torna interessante.

O verdadeiro debate não é sobre proibir a tecnologia, mas sobre observar o lugar que ela ocupa na vida da criança.

A tela está ampliando experiências ou substituindo aquilo que a criança ainda precisa viver com o corpo, com a imaginação e com outras pessoas?

Toy Story 5 e a disputa pela atenção das crianças.

Lilypad chega como novidade, eficiência e promessa de pertencimento.

Para uma criança que apresenta dificuldade para se aproximar dos colegas, conversar por meio de uma plataforma pode parecer mais fácil e menos arriscado do que iniciar uma interação pessoalmente.

A tecnologia oferece atalhos e alguns deles podem ser úteis. Entretanto, todo atalho também pode impedir que determinadas habilidades sejam exercitadas.

Brincar livremente exige criar histórias, negociar regras, esperar, tomar decisões, tolerar frustrações e mudar de ideia.

Em uma brincadeira compartilhada, a criança precisa perceber o outro, comunicar o que deseja e ajustar o próprio comportamento. Nada acontece de maneira perfeitamente organizada.

O brincar é um pequeno laboratório da vida justamente porque não vem pronto.

Muitas experiências digitais, por outro lado, são desenvolvidas para oferecer respostas rápidas, manter o interesse e reduzir as pausas.

O problema, portanto, não é a existência da tela. O problema começa quando a facilidade oferecida por ela ocupa quase todo o espaço das experiências que exigem iniciativa, criatividade, movimento, contato e tolerância à frustração.

A questão não é apenas quanto tempo a criança passa diante de uma tela, mas o que deixa de acontecer enquanto ela está ali.

Bonnie não quer apenas um tablet , ela quer pertencer!

Uma das camadas mais sensíveis de Toy Story 5 está na relação entre tecnologia e pertencimento.

Bonnie percebe que outras crianças já não demonstram interesse pelos brinquedos como antes. Assim, deixar de brincar não representa apenas trocar uma atividade por outra. Pode parecer uma condição para ser aceita pelo grupo e considerada “grande”.

Conforme crescem, as crianças começam a observar com mais atenção o que os colegas usam, assistem, vestem, comentam e valorizam.

Quando acreditam que precisam abandonar algo de que gostam para não parecerem infantis, podem começar a esconder partes importantes de si mesmas.

Por isso, diante da insistência da criança por um aparelho, jogo ou rede social, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Por que você quer tanto isso?”

Podemos ampliar a conversa perguntando:

“O que você espera sentir ou conquistar com isso?”

Às vezes, existe apenas curiosidade. Em outras situações, pode existir medo de ficar de fora, dificuldade para fazer amigos ou necessidade de ter um assunto em comum com o grupo.

Quando o adulto consegue escutar a necessidade que está por trás do comportamento, pode orientar a criança sem transformar a conversa em uma batalha de poder.

Crescer não deveria significar desaprender a brincar.

Brincar não é perda de tempo  e também não deveria ser considerado um luxo reservado somente às crianças muito pequenas.

A brincadeira simbólica ajuda a criança a representar situações, elaborar emoções, experimentar diferentes papéis, encontrar soluções e organizar experiências que ainda não consegue explicar diretamente.

Ao construir, inventar personagens, modificar regras ou desmontar o que acabou de fazer, a criança desenvolve importantes habilidades, como:

  • criatividade;
  • comunicação;
  • planejamento;
  • flexibilidade cognitiva;
  • resolução de problemas;
  • tolerância à frustração;
  • autorregulação emocional.

Isso também explica por que uma caixa, um boneco ou algumas peças podem sustentar uma experiência tão rica.

O brinquedo não entrega tudo pronto. Ele deixa espaços vazios para que a criança os preencha com pensamento, emoção e imaginação.

E o espaço vazio, embora às vezes assuste os adultos, é matéria-prima para a criatividade.

A tecnologia não precisa ser expulsa da história.

Um dos méritos do filme é permitir uma reflexão menos moralista.

Lilypad e Jessie parecem ocupar lados opostos, mas ambas acreditam que estão ajudando Bonnie. Essa semelhança nos lembra que os recursos digitais também podem favorecer a comunicação, a aprendizagem, a criatividade e o acesso à informação.

O cuidado está em não permitir que a tela se transforme na única resposta para o tédio, a ansiedade, a solidão ou a dificuldade de interação.

As orientações mais recentes propõem que as famílias observem não apenas o número de horas diante das telas, mas também:

  • as características e necessidades da criança;
  • o tipo de conteúdo acessado;
  • a função que a tecnologia está cumprindo;
  • o que está sendo deixado de lado;
  • como está a comunicação dentro da família.

Também é importante proteger momentos destinados ao sono, ao movimento, à leitura, às tarefas, às brincadeiras e à convivência.

Uma regra funciona melhor quando está acompanhada de presença, previsibilidade e alternativas reais.

Apenas retirar o aparelho e dizer “vá brincar” não basta.

Para algumas crianças, principalmente quando o uso da tela já ocupa grande parte da rotina, brincar livremente pode não acontecer imediatamente. Elas podem precisar da participação inicial de um adulto, de materiais acessíveis, de menos estímulos no ambiente e de tempo para redescobrir o prazer da brincadeira.

Mais importante do que controlar é acompanhar.

Assistir a Toy Story 5 em família pode abrir uma conversa que dificilmente surgiria a partir de uma bronca.

Em vez de utilizar o filme para transmitir uma lição pronta, os adultos podem fazer perguntas e escutar genuinamente as respostas da criança.

Depois do filme, experimente perguntar:

  • Por que você acha que Bonnie ficou tão interessada em Lilypad?
  • Você já teve medo de gostar de algo que seus amigos não gostam?
  • O que podemos fazer com os brinquedos que não conseguimos fazer em uma tela?
  • Em quais situações a tecnologia ajuda?
  • Em quais momentos ela começa a atrapalhar?

As respostas podem revelar muito sobre amizades, inseguranças, hábitos e necessidades emocionais.

O objetivo não é conduzir a criança até a resposta considerada “correta”, mas ajudá-la a pensar sobre a própria experiência.

O que os pais podem observar

Mais do que vigiar o relógio, é importante observar a relação que a criança estabelece com a tecnologia.

Alguns comportamentos merecem atenção quando acontecem com frequência, apresentam grande intensidade e começam a prejudicar a rotina:

  • dificuldade intensa para interromper o uso, mesmo com combinados prévios;
  • perda de interesse por brincadeiras, movimento ou convivência;
  • uso da tela como única forma de acalmar emoções desconfortáveis;
  • prejuízos no sono, na alimentação, nas tarefas ou nas relações;
  • necessidade constante de estímulos rápidos;
  • baixa tolerância ao tédio;
  • sofrimento relacionado à comparação, exclusão ou pressão dos colegas.

Limites são necessários, mas funcionam melhor quando os adultos também observam os próprios hábitos, constroem combinados possíveis e participam de momentos de brincadeira e conexão.

O que Toy Story 5 deixa para as famílias

Toy Story 5 não precisa ser compreendido como um pedido para voltarmos a uma infância completamente sem tecnologia.

O convite do filme é mais honesto e também mais desafiador: construir uma infância em que a tecnologia tenha lugar, mas não tenha todos os lugares.

As crianças precisam aprender a viver no mundo digital. Mas também precisam correr, inventar, conversar olhando nos olhos, perder uma partida, refazer uma construção, suportar pequenos vazios e descobrir o que fazer quando nada pisca diante delas.

Precisam de brinquedos, mas, acima de tudo, precisam de tempo, espaço e adultos disponíveis para sustentar o brincar.

Talvez a mensagem mais bonita do filme seja esta:

Crescer não exige abandonar a imaginação para pertencer.

Acompanhar uma criança não significa escolher entre o passado e o futuro, mas ajudá-la a atravessar os dois sem perder aquilo que a mantém viva, curiosa e inteira.

Se o uso de telas tem causado conflitos intensos, prejuízos na rotina ou afastamento de atividades importantes, uma avaliação profissional pode ajudar a família a compreender o que esse comportamento está comunicando e construir estratégias adequadas às necessidades da criança.

Kariane Messias
Psicologia Infantil e Educação Socioemocional
Atendimento presencial na Pompeia — São Paulo
www.aretepsicologia.com.br

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